segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Estranha Carência



"A felicidade é uma estação intermédia entre a carência e o excesso."
Henrik Ibsen


Olhando daqui donde estou, acompanhada como estou, vejo que não é preciso (nunca foi) gritar por Sua atenção. Parei de chorar para procurar ouvir a voz que me serviria de calmante. Não é necessário morrer para ouvir a voz de Deus. Agora eu sei. Todas as vezes que eu me jogava ás trevas aquela voz descia do céu á minha escura profundeza como uma corda enlaçada que resgata um animal de um poço lamacento.

"E haja luz..."

Talvez só por carência eu trilhasse ruas estranhas, eu sofria horas infindas, eu feria minha carne, eu cortava os pulsos só para te ouvir murmurar, gemer e susurrar o meu nome, bem baixinho, sem ira como se no fundo eu fosse mesmo irrepreensível, como eu tivesse mesmo a razão de ser assim. Eu me acalmava apenas ao som do teu suspiro pesado como um bebê se acalma ao ninar da mãe cansada de tentar fazê-lo adormecer.

Talvez "Você" em algum instante da eternidade também sentiu solidão na imensidão do nada. Talvez houvesse um tempo em que não existisse nada. Nem céu, nem anjos, nem nada – apenas "Você" e sua carência. E talvez essa carência tornou-se tão forte, tão grande que foi maior que "Você" até que isso explodiu e nessa explosão foi surgindo fagulhas de luz, de universo, borboletas, de homem e como também não era bom que o homem estivesse só - também fagulhas de mulher.

Olhando daqui talvez a carência seja necessária. Mas agora eu a dispenso. Já a tive em excesso. Um dia... Hoje não mais...

Krol Rice
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3 comentários:

  1. A carência as vezes pode ser destrutiva, não?

    legal seus textos!!

    Parabéns!
    -*

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  2. Carência na medida certa.
    O que destrói não é ela, mas o que dela sobeja, seu excesso. Bem dosada, pode nos fartar e nos dar aquele átmo de felicidade... Algo assim, feito um lusco-fusco, mas que sacia de súbito.
    Menina, adoro seus textos, sua poesia. Hiper legal o que escreves, parece que tua alma vai junto. Sensacional, boa leitura faço dos seus textos, que sempre nos fazem pensar, pois vêm temperados de uma instigação entrelinear que fascina.

    Amiga, que bom que você existe!

    Meus parabéns, pelos belos escritos. Continue a nos engrandecer o espírito com suas pitadas generosas de boas palavras, com textos assim, que nos maravilham, cada vez mais, dia-após-dia!

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  3. Correção:
    Onde se lê: "átmo",
    Leia-se: "átimo".
    Muito grato,
    Abs,
    João

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